Capítulo 1 · Lore Completa

Capítulo I: Quando o Véu se Rasgou

"Existiam dois universos. Um de mana e sangue. Outro de dados e eletricidade. Durante milênios, coexistiram sem saber da existência um do outro. Até que a guerra rasgou o véu. E tudo mudou."

— Inscrição na Praça da Correria, Beco dos Gamers

Parte I: Aetheria — o mundo que nunca conheceu a paz

Floresta de Ferro-Folha, Aetheria — três séculos antes do Glitch Binário

Severinom tinha apenas quarenta e dois anos — praticamente uma criança para os padrões élficos — quando viu sua primeira execução ritual.

Ele estava escondido atrás de uma árvore metálica gigante, as mãos pequenas agarradas à casca de bronze frio, os olhos arregalados observando a clareira à frente. Sua mãe havia dito para não sair da colônia. Mas Severinom nunca fora bom em obedecer ordens.

E agora se arrependia.

No centro da clareira, cercado por tochas de cristal azul, um elfo guerreiro estava ajoelhado. Suas mãos estavam amarradas com teias que brilhavam — não com luz natural, mas com algo errado. Corrompido. As teias pulsavam como veias doentes.

Ao redor dele, elas esperavam. Criaturas do Caos.

Severinom não sabia os nomes de todas as raças. Sua mãe nunca falava sobre elas. Mas ele reconhecia algumas: os Drakar (humanoides de pele cinza-esverdeada, olhos sem pupilas), os Shyran (serpentinos, língua bifurcada e escamas iridescentes), e… aquela.

A que comandava.

Ela tinha forma vagamente aracnídea — oito membros longos e articulados, corpo segmentado coberto de quitina negra que refletia luz como cristal. Mas sua cabeça… era quase élfica. Quase. Os olhos eram muitos. A boca, larga demais. E quando falava, a voz saía em múltiplas frequências, como se várias criaturas falassem ao mesmo tempo.

"Você lutou bem, filho da Luz," ela disse, circulando o prisioneiro. "Mas perdeu. E em Aetheria, perder significa… alimentar."

O guerreiro cuspiu no chão.

"Nunca vou alimentar vocês, Tecelã".

A criatura — a Tecelã da Fome, Severinom percebeu com horror — inclinou a cabeça. Um som saiu dela. Não era riso. Era algo entre o rangido de quitina e o estalar de cristal quebrando — um som que não pertencia a nenhuma garganta, e que fazia a mana do ar vibrar nas frequências erradas.

"Você não precisa querer. Apenas precisa… morrer." E então aconteceu.

As teias ao redor do guerreiro o apertaram. Ele gritou — não de dor física, mas de algo pior. Severinom viu, horrorizado, enquanto a essência do elfo — sua mana, sua alma, suas memórias — era sugada através das teias, fluindo para dentro do corpo da Tecelã.

O guerreiro envelheceu cem anos em dez segundos. Sua pele murchou. Seus olhos apagaram. E quando as teias finalmente se soltaram, o que restou não era um corpo.

Era cinzas.

A Tecelã suspirou — um som de satisfação obscena.

"Delicioso. Ele tinha… esperança. Isso sempre adiciona um sabor especial." As outras criaturas do Caos riram.

E Severinom, tremendo, recuou devagar. Pisou em um galho de metal.

CLANG.

Todos os olhos — todos — viraram para ele. A Tecelã sorriu.

"Ah. Uma criança. Perfeita para… sobremesa." Severinom correu.

Ele não se lembrava de como chegou em casa. Apenas se lembrava de sua mãe o encontrando na porta da colônia, chorando, coberto de arranhões.

Ela não perguntou o que ele tinha visto. Apenas o abraçou e sussurrou:

"A guerra está piorando, meu filho. E um dia… talvez não tenhamos mais para onde fugir."

Severinom, naquela noite, jurou três coisas:

Ele quebraria a primeira promessa muitas vezes.

Cumpriria a segunda aos setenta anos, tornando-se rastreador. E a terceira… levaria trezentos anos. E custaria tudo.

Dois séculos depois — Núcleo de Aetheria, Conselho das Raças da Luz

A sala era circular, esculpida em cristal vivo que pulsava com luz suave. Doze cadeiras flutuavam ao redor de uma mesa holográfica que mostrava um mapa de Aetheria.

E o mapa estava sangrando vermelho.

"Perdemos o Bosque das Lamentações," disse Comandante Lyria, uma elfa de cabelos prateados e cicatrizes que contavam histórias de cem batalhas. Ela apontou para uma região no mapa que agora pulsava em vermelho-escuro. "A Sussurrante invadiu na madrugada. Corrompeu os cristais de comunicação. Quando percebemos, já era tarde. Trezentos mortos. Cinquenta… convertidos."

Silêncio pesado.

"Convertidos" era o termo educado. A verdade era pior: corrompidos. Transformados em servos do Caos através de magia parasitária.

Severinom, agora com duzentos e quarenta e três anos, estava encostado na parede. Ele não tinha cadeira no Conselho — rastreadores raramente tinham. Mas Lyria havia insistido que ele estivesse presente.

Porque ele havia trazido notícias.

"Severinom," Lyria chamou. "Conte a eles." Todos os olhos viraram para ele.

Severinom endireitou-se. Suas orelhas gigantes — motivo de piada entre os elfos mais altos — tremeram levemente. Nervosismo.

"Eu… infiltrei o acampamento do Enxame Eterno. Três semanas atrás." Sua voz era rouca de tanto sussurrar durante missões. "E ouvi algo. Eles estão planejando… um ataque final."

"Outro?" Um conselheiro — um elfo ancião de barba que tocava o chão — bufou. "Eles atacam toda semana."

"Não assim." Severinom sacou um cristal de memória rachado. Colocou na mesa. A imagem holográfica mudou.

Mostrou quatro criaturas.

A Tecelã da Fome (aracnídea, olhos múltiplos).

O Devorador de Tempo (lesma colossal, corpo translúcido pulsante).

A Sussurrante das Mentiras (serpentina, escamas que mudavam de cor como telas).

O Enxame Eterno (verme segmentado, cada parte uma cópia menor).

Os Quatro Líderes do Caos.

"Eles estão reunindo… tudo," Severinom continuou. "Todas as facções. Todos os exércitos. E planejam detonar uma Bomba de Mana no Escudo Planetário."

Silêncio. Então caos.

"IMPOSSÍVEL!" "Eles não teriam cristais suficientes!" "Seria suicídio!"

Lyria ergueu a mão. Silêncio voltou.

"Severinom. Você tem certeza?" Ele engoliu seco. Assentiu.

"Ouvi da boca da Tecelã. Ela disse… 'Se não podemos vencer, rasgaremos o mundo.' " Lyria fechou os olhos.

"Então não temos escolha. Precisamos reforçar o escudo. Usar toda a reserva de cristais puros. E rezar."

Três meses depois — 31 de dezembro de 1999 (calendário humano) / Dia da Ruptura (calendário de Aetheria)

O céu de Aetheria tinha três luas. Naquela noite, todas estavam vermelhas.

Severinom estava na linha de frente — uma barreira de cristal azul que cercava o Núcleo de Aetheria. Ao seu lado, mil guerreiros. Atrás deles, o escudo planetário brilhava como uma aurora impossível.

E à frente…

O exército do Caos. Milhões.

Não. Bilhões.

Criaturas de todas as raças inimigas, amontoadas até onde a vista alcançava. E no centro, montados em seus mascotes gigantes…

Os Quatro.

A Tecelã, sobre sua Aranha de Cristal Negro.

O Devorador, fundido com sua Lesma Fosforescente.

A Sussurrante, enrolada em sua Serpente Marinha.

O Enxame, cercado por seu Verme Segmentado.

Lyria, ao lado de Severinom, sussurrou:

"Se morrermos hoje… foi uma honra lutar com você." Severinom não respondeu.

Porque naquele momento, a Tecelã gritou. Não com voz. Com mana.

E o exército do Caos explodiu. Não atacou. Explodiu.

Milhões de criaturas se auto-detonaram em uma onda de mana corrompida tão violenta que o chão de Aetheria rachou.

O escudo planetário segurou. Por três segundos.

Então quebrou.

E quando quebrou, não apenas desapareceu. Rasgou o véu dimensional.

Severinom viu, horrorizado, enquanto o céu de Aetheria se partia — como vidro sendo estilhaçado por dentro. E através das rachaduras, ele viu…

Outro mundo.

Luzes. Milhões delas. Não eram estrelas. Eram artificiais. Torres de metal e vidro. Objetos voadores brilhantes. E… eletricidade. Ele podia sentir — uma energia estranha, não-mágica, mas viva.

"O QUE… O QUE É AQUILO?!" Lyria gritou. Severinom não teve tempo de responder.

Porque a sucção começou.

O chão sob seus pés foi arrancado. Árvores metálicas, cristais, elfos — tudo sendo puxado para a rachadura.

Severinom tentou se segurar. Não adiantou.

Ele foi sugado.

E enquanto atravessava o véu — sentindo sua pele queimar, seus ossos vibrarem em frequências impossíveis — teve um único pensamento:

"Que mundo é esse?"

Parte I.5: Terra — o mundo ignorante (1995–1999)

São Paulo, Brasil — 1995. Cinco anos antes do Glitch. Cyber Café "Bit a Bit" — Rua Augusta

A internet no Brasil ainda era um luxo.

Conexão discada. 56k se você tivesse sorte. 28.8k na maioria dos casos. E o barulho — aquele barulho infernal de modem conectando — era a trilha sonora de uma geração.

Bip. Bip. Crrrrrr. Pshhhhhhh. Ding-ding-ding.

"CONECTADO."

Mariana Oliveira tinha quatorze anos quando entrou pela primeira vez em um cyber café.

Sua irmã mais velha — estudante de informática — havia arrastado ela até lá. "Vai, Mari, para de ser analógica." E ali estava: vinte computadores Pentium, monitores CRT gigantes, teclados barulhentos.

E jogos.

Mariana se sentou na frente de um PC. O dono do café — um cara de uns trinta anos, camiseta do Nirvana, cabelo desgrenhado — sorriu.

"Primeira vez?" Ela assentiu.

"Então vou te mostrar algo mágico." Ele abriu um jogo: Ultima Online.

E o mundo de Mariana mudou.

1996–1998: os primeiros ecos

Conforme a internet se espalhava pelo Brasil, algo estranho começava a acontecer. Jogadores relatavam fenômenos inexplicáveis:

Fórum UOL Games — 1997

Tópico: "NPCs agindo MUITO estranho" — Autor: LuizGamer87

"Galera, tô jogando Ultima Online faz 6 meses. Mas ontem aconteceu algo BIZARRO. Um NPC mercador me seguiu. Tipo, SEGUIU MESMO. Não era script. Ele OLHAVA pra mim. E quando tentei falar com ele, o texto que apareceu foi: 'Você não deveria estar aqui.' WTF??? Alguém mais viu isso?"

CarlosCS: "Cara, você tá maluco. É bug."

MariaSP: "Eu vi algo parecido em EverQuest. Um mob me atacou FORA da área de aggro. E quando morri, senti uma dor de cabeça HORRÍVEL. Tipo, dor REAL. Durou 2 horas."

AdminForum: "Pessoal, vamos manter a calma. São apenas bugs de servidor. Nada de teorias da conspiração, ok?"

Mas os relatos continuavam.

1998: os sonhos

Mariana tinha dezessete anos quando começou a ter os sonhos. Sempre o mesmo:

Ela estava em uma floresta. Mas as árvores eram metálicas. Brilhavam com luz azul. E no céu, havia três luas.

E algo a observava.

Uma criatura. Aracnídea. Gigante. Com muitos olhos. Mariana acordava suando. Coração disparado.

Mas o pior não era o medo. Era a sensação.

De que aquilo era real.

1999: o ano da virada — janeiro de 1999 — Bug do Milênio

O mundo estava em pânico.

Computadores iam "explodir" quando o ano virasse para 2000. Bancos entrariam em colapso. Aviões cairiam. O apocalipse digital.

Mas alguns — os sensíveis — sentiam algo diferente. Não era medo de computadores quebrando.

Era medo de algo atravessando.

Julho de 1999 — Lan House "Cyber Point", São Paulo

Mariana, agora com dezoito anos, jogava Counter-Strike Beta pela primeira vez. Ela escolheu terrorista. Pegou uma AK-47. Entrou no bombsite B.

E então sentiu. Uma presença.

Não era outro jogador. Era… algo mais.

Ela olhou para a tela. Seu personagem estava parado. Mas ela podia sentir algo do outro lado.

Observando. Esperando.

Mariana desconectou. Correu para casa.

E naquela noite, teve o sonho de novo. Mas dessa vez, a criatura aracnídea falou:

"Em breve, os mundos se encontrarão. E vocês não estão prontos."

Dezembro de 1999 — últimos dias

Os relatos se intensificaram:

Mas ninguém conectava os pontos. Até que…

Parte II: Terra — o mundo que não sabia o que estava por vir

São Paulo, Brasil — 31 de dezembro de 1999 — 23h47

Mariana Oliveira tinha dezoito anos e odiava festas de Réveillon.

Ela estava no terraço do prédio onde morava na Vila Madalena, fones de ouvido no máximo volume (Linkin Park — Crawling), tentando ignorar os gritos de "FALTAM DEZ MINUTOS!" que vinham das janelas vizinhas.

Sua mãe havia insistido que ela "socializasse". Seu pai havia dito que era "importante estar com a família na virada do ano".

Mariana havia respondido que preferia jogar Counter-Strike. Resultado: castigo. Sem internet por uma semana.

Então ali estava ela. Sozinha. No terraço. Olhando para o céu de São Paulo — poluído, alaranjado, sem estrelas visíveis.

Entediada. Até que…

O céu piscou. Não. Pior.

Rachou.

Mariana arrancou os fones.

O som que vinha da rachadura não era trovão. Não era avião. Era… digital? Como um modem discado mixado com estática de rádio. E por baixo disso, algo que parecia… canto?

A rachadura se expandiu. Verde-fosforescente. Pulsante. E então eles começaram a sair.

Criaturas.

A primeira era pequena — do tamanho de um gato. Feita de… pixels? Luz sólida? Tinha quatro patas, duas caudas, e nenhum rosto. Apenas um buraco negro onde deveria estar a cabeça.

Ela pousou no parapeito do terraço. Virou o "rosto" para Mariana.

E chiou — um som de arquivo de áudio corrompido. Mariana recuou.

A criatura pulou. Mariana gritou.

Mas a criatura não a atacou.

Passou através dela — como um fantasma — e desapareceu escada abaixo. Mariana ficou congelada.

"O que… o que foi isso?"

Então viu a segunda criatura. Essa era maior. Muito maior.

Aracnídea. Do tamanho de um carro. Feita de cristal negro e luz corrompida. Oito patas que atravessavam o concreto do prédio vizinho como se fosse água. E ela estava olhando para Mariana.

Com muitos olhos.

Mariana não conseguiu se mover. A criatura saltou

E pousou no topo do prédio dela. O concreto rachou.

Mariana correu.

Desceu as escadas aos tropeções, coração batendo no ouvido, pulmões queimando. Atrás dela, ouvia o som de algo descendo também. Patas arranhando metal. Chiados digitais.

Ela chegou no apartamento. Bateu na porta. "MÃE! PAI! ABRAM!"

A porta se abriu.

Seu pai — um homem de meia-idade, barriga de cerveja, camiseta do Corinthians — olhou para ela confuso.

"Mariana? O que —"

"TEM ALGO NO TERRAÇO! TEM —"

BOOM.

A luz acabou. Não só no prédio.

Na cidade inteira.

Através da janela, Mariana viu São Paulo apagar. Milhões de luzes — prédios, postes, carros — desaparecendo em ondas concêntricas. E então…

Brilharam.

Mas não com eletricidade.

Do chão das ruas, começaram a brotar coisas. Cristais. Translúcidos. Azuis, verdes, vermelhos. Brotando como plantas em time-lapse, crescendo até terem dois, três metros de altura.

E brilhavam.

Iluminando a cidade com luz fantasmagórica. O pai de Mariana sussurrou:

"Que… que diabos…" Mariana não respondeu.

Porque ela estava olhando para o cristal que havia brotado dentro do apartamento — atravessando o piso, crescendo no meio da sala.

E ele estava pulsando. Como um coração.

Ela se aproximou. Estendeu a mão.

"MARIANA, NÃO!" Sua mãe gritou. Mas era tarde.

Mariana tocou o cristal. E sentiu.

Não com os dedos. Com a mente.

O cristal estava… vivo. Sussurrando. Chamando. Mas ela não entendia a língua.

Ainda não.

Enquanto isso, em um beco a três quarteirões de distância — Vila Madalena, São Paulo, segundos depois do Glitch

Severinom não escolheu onde cair.

Ninguém escolhe. Quando o véu dimensional se rasga, você vai para onde a ressonância te puxa. E a ressonância segue mana.

A Vila Madalena tinha mais cristais por metro quadrado do que qualquer outro bairro de São Paulo. Ninguém entenderia o motivo por anos. Mais tarde, Celestia calcularia que havia uma fenda dimensional naturalmente fina naquela região — uma falha geológica no tecido do Supermundo, anterior ao próprio Glitch.

Cristais brotavam mais fácil onde o véu era mais fraco.

E Severinom, sendo uma criatura de pura mana, foi atraído para aquele ponto como agulha para ímã.

Ele não soube disso na hora.

Na hora, apenas acordou em uma poça de algo nojento.

Ele se levantou cambaleando. Sua armadura de cristal de Aetheria estava rachada — a travessia dimensional havia sobrecarregado os encaixes de mana que mantinham as placas juntas. Sangue élfico (azul-prateado) escorria de um corte na testa. Suas orelhas gigantes zuniam.

Olhou ao redor.

Onde estava?

Não era Aetheria. O chão era… pedra artificial? As paredes, tijolos cobertos de algo colorido (o que humanos chamavam de "pichação", mas ele não sabia). E aquelas caixas de papelão, garrafas de vidro, lixo…

"Que lugar imundo."

Ouviu vozes. Virou-se.

Três humanos — ele sabia que eram humanos, havia lido sobre eles em textos ancestrais, mas nunca havia visto um — o encaravam.

Altos. Muito altos (mais de 1,80m, enquanto ele tinha cerca de noventa centímetros). Sem orelhas pontudas. Pele estranha. E seguravam… varas de metal?

Um deles gritou algo.

Severinom não entendia a língua. Mas entendeu a intenção.

Eles apontaram as varas.

BANG.

Dor explosiva no ombro.

Severinom olhou para baixo. Viu um buraco. Fumegante. Sangue azul escorrendo.

"Magia de projétil? Mas… sem mana? Como?!"

Ele cambaleou para trás. Levantou as mãos.

Tentou falar. As palavras saíram quebradas, erradas — ele estava usando magia de tradução, mas ela não funcionava direito nesse mundo.

"Eu… não… inimigo…"

Os humanos não entenderam.

Apontaram de novo.

Severinom fechou os olhos.

"Lyria… me desculpe. Eu falhei."

BANG.

Mas a dor não veio. Ele abriu os olhos.

Um cristal havia brotado entre ele e os humanos — azul-elétrico, pulsante. E a bala estava presa no cristal, congelada no meio do ar.

Os humanos recuaram, assustados. Severinom olhou para o cristal.

E entendeu.

"Cristais de mana… aqui? Nesse mundo? Mas como?!"

Ele tocou o cristal. E sentiu a resposta:

Os mundos haviam se fundido.

E agora…

Tudo havia mudado.

Parte III: o massacre silencioso (2000–2005)

São Paulo, Brasil — 3 de janeiro de 2000 — três dias após o Glitch

A lan house "Cyber Point" na Rua Augusta estava lotada. Não porque as pessoas queriam jogar.

Mas porque era um dos poucos lugares com energia.

Os cristais — aquelas coisas bizarras que haviam brotado por toda a cidade — de alguma forma geravam eletricidade. Ninguém sabia como. Cientistas estavam investigando. Governo estava em pânico. Mas a verdade era simples: sem os cristais, São Paulo estava morta.

E as pessoas estavam desesperadas por normalidade. Então voltaram aos computadores.

Computador 07 — 14h23

Lucas Ferreira, 19 anos, estudante de Engenharia, carregou Counter-Strike 1.5.

Ele havia passado os últimos três dias trancado em casa, assistindo notícias sobre "o evento". Criaturas estranhas. Cristais brotando. Pessoas desaparecendo.

Mas agora…

Ele só queria jogar.

"Partida encontrada. 5v5 — de_dust2."

Lucas sorriu. Pegou a M4A1. Entrou no bombsite A.

E não percebeu.

Não percebeu que seu oponente não era outro jogador. Era algo do outro lado.

Do outro lado da tela — em algum ponto do Supermundo que ainda não tinha nome — uma criatura do Caos olhava para a "janela" flutuante à sua frente. Ela não entendia o que era aquilo. Apenas sabia que, quando tocava a janela com mana, podia sentir algo do outro lado.

Uma consciência. Humana.

E quando a partida começou… ela podia atacar.

De volta à lan house

Lucas estava jogando bem. 12-3 no placar. Três kills seguidas. Mas então sentiu algo estranho.

Uma dor de cabeça. Leve. Como sinusite. Ignorou.

Continuou jogando.

Headshot.

A dor piorou. Aguda. Como se alguém estivesse enfiando uma agulha atrás dos olhos.

"Cara, você tá bem?" O jogador ao lado perguntou. Lucas não respondeu.

Porque estava vendo algo impossível.

Na tela, seu personagem estava morrendo. Mas ele podia sentir.

Cada tiro. Cada explosão. Não era dor física.

Era… astral?

Ele não tinha palavras.

Apenas sabia que estava errado. A partida terminou.

16-14. Derrota.

Lucas se levantou cambaleando.

"Cara, você tá MUITO pálido," alguém disse. Lucas abriu a boca para responder.

Sangue saiu. Ele caiu.

E não se levantou.

Três horas depois — Hospital das Clínicas

Dra. Renata Costa estava no limite.

Três dias. Três dias desde "o evento". E o hospital estava lotado. Casos inexplicáveis:

E todos tinham algo em comum:

Haviam jogado online nas últimas 24 horas.

"Doutora!" Uma enfermeira correu até ela. "Mais um. Dezenove anos. Colapsou em uma lan house."

Renata correu para a sala de emergência.

O garoto — Lucas — estava na maca. Pele pálida. Olhos revirados. Sangue escorrendo do nariz e ouvidos.

"Que diabos está acontecendo?!" Renata sussurrou. Ela não tinha resposta.

Ainda não.

Janeiro a março de 2000 — a epidemia se espalha

Semana 1 (janeiro):

Semana 2:

Semana 3:

Semana 4:

Abril de 2000 — os primeiros padrões

Alguns jogadores — os sensíveis — começam a perceber padrões:

Fórum Brasileiro Clandestino (IRC secreto)

GamerSP1987: "Pessoal, eu percebi algo. Quando jogo offline (contra bots, sem internet), não sinto nada. Mas quando jogo online, sinto aquela dor de cabeça. Tipo… algo me observando. Alguém mais?"

RioGamer: "SIM! E eu percebi outra coisa. Quando perco, a dor é MUITO pior. Mas quando ganho, é só um desconforto leve. Tipo… eles só nos machucam quando vencemos?"

MariaSP: "Não. Eles nos machucam sempre. Mas quando perdemos, é fatal. Quando ganhamos, é só… dano. Tipo HP baixo, mas não morte."

AdminForum: "Isso não faz sentido. Como um JOGO pode causar dano REAL?"

MariaSP: "Porque não é um jogo. É uma guerra."

2001–2003: os anos mais sombrios

A humanidade estava perdendo.

Estatísticas globais (estimadas):

No Brasil:

Casos documentados

Caso 1 — Torneio Fatal (2001):

Caso 2 — A Criança Corrompida (2002):

Caso 3 — O Suicídio Coletivo (2003):

2004–2005: a humanidade aprende a se esconder

Estratégias de sobrevivência:

Enquanto isso, em um porão na Vila Madalena…

Severinom estava morrendo.

Não de ferimentos — elfos curavam rápido. Mas de desespero.

Ele estava preso nesse mundo há cinco anos. Sem comida élfica. Sem comunicação — ninguém entendia sua língua. Sem esperança.

E ele havia percebido algo terrível:

O Caos havia atravessado também.

Ele via as criaturas. Pequenas. Grandes. Todas parasitando a tecnologia humana. E os humanos estavam morrendo.

Porque não sabiam lutar.

Severinom enterrou o rosto nas mãos.

"Eu deveria ajudar. Mas… como? Eles atiram em mim. Não entendem minha língua. E eu…"

Ele olhou para o cristal azul que havia brotado no canto do porão.

"Eu estou sozinho."

Mas então… ouviu algo. Passos.

Alguém descendo a escada do porão. Severinom se encolheu nas sombras. A porta se abriu.

E uma garota entrou.

Jovem. Vinte e quatro anos. Doutoranda em Engenharia de Computação pela USP. Cabelo desgrenhado. Olhos arregalados. E nas mãos…

Um cristal.

Ela o segurava como se fosse precioso. E sussurrava para ele.

"Por favor… me diga o que você é. Por favor." Severinom prendeu a respiração.

A garota se aproximou do cristal no canto do porão. Tocou.

E sentiu.

Seus olhos se arregalaram.

"Você… você está vivo?" O cristal pulsou.

E Severinom percebeu:

Ela era sensível. Podia sentir mana.

Ele saiu das sombras.

A garota gritou. Recuou.

Severinom ergueu as mãos. Devagar.

E tentou falar. Usando magia de tradução. Forçando as palavras.

"Eu… não… inimigo…"

A garota olhou para ele. Para o cristal. De volta para ele. E sussurrou:

"Você… você estava nos meus sonhos."

Severinom piscou.

"Sonhos?"

Então entendeu.

Aetheria havia vazado para esse mundo antes do Glitch.

Através de ressonância dimensional.

E alguns humanos — os sensíveis — haviam sentido.

Ele deu um passo à frente.

A garota não fugiu.

"Eu… Severinom," ele disse, apontando para si mesmo. "Mariana," ela respondeu.

E assim…

Começou a aliança.